segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Abstracção


Tão abstracto é o que sinto... 
Como abstracto o desejo envergonhado 
De sentir abrigo em teu poiso
Abstracto são as palavras que silenciei 
Os devaneios de quimeras alucinadas
Esquecidas... pra sempre abandonadas
Abstracto é esta insanidade quase demente
De quem foge à realidade e a si, assim mente
É uma dor submersa nesta inquietude de me querer dar... e não me dou...
É  de ti querer tudo e já nada me poderes dar... porque a vida assim o ditou
Já nada te peço... já pouco recebo... já nada te dou...
Tão vazia me deixa a tua ausência 
Caminho só... neste trilho gélido e inóspito 
Enxergo a realidade desta louca cegueira
Determinada, expulso desejos insensatos
E volto à vida por inteira. 

 © Ana Simões





quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Será Eterno




É tão grande minha saudade ... e tão triste a realidade
Dos meus olhos escorrem lágrimas salgadas num misto de revolta e dor, saudade e amor
Meu coração fraco vai cedendo pressionado pela dualidade do meu sentir
Que termine teu penar, é só o que me resta implorar
Expurga para longe de ti essas dores que dizes não suportar
São de angustia estes momentos tenebrosos
A Deus me ajoelho em prece e ... 
 rezo para que as amarras que te aprisionam ao teu padecer 
 se desfaçam em laços castos de amor e alva paz
Que sejam de mel as  amargas dores  de sabor a fel
Quem ama não prende...
Quero-te arredada de tudo que é nefasto e te amarra
Quero-te em meus sonhos que sonho acordada
e longe do ilógico angustiante enquanto durmo
Quero-te em mim imortalizada
Quero-te não cativa de uma existência de suplício 
Sem nunca esquecer tudo que fomos 
Porque eu tenho uma saudade insaciável e tu...
minha deusa uma  benevolência  inesgotável 
Não há razão para explicar o que sinto
Apenas que será eterno...
A amizade é assim...
Esvoaça quando lhe damos liberdade 
É este o franco verbo amor quando bem conjugado...

© Ana Sousa Simões

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Aliança


Aliança

Chegaste e ficaste em mim
Nada me prometeste e eu nada prometi
Pintamos carícias na tela da vida
Navegámos marés num bote à deriva
Palmilhamos veredas de um verde esperança
Sonhamos juntos, sonhos de criança
E a par e passo o tempo passando
Criámos vida assente na confiança
Plantámos amor em solo fecundo
E juntos, desvendámos mundo
Harmoniosamente seguimos a estrada
Em deliciosa surdina
Unidos, de mão dada 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

"Carnis Valles"


Carnis Valles

Abri a porta ao entrudo
entrei num folguedo carnavalesco, pleno de festa e folia
abandonando as dores do dia a dia
São de cor os cortejos que desfilam 
por ruas abarrotadas de música e alegria
Esquece o povo e esqueço eu... a crua e fria dor do seu viver
E nesta permissão de alegorias e fantasia
traja o povo vestes de nobreza
Que sejam de seda as linhas que suas vestes costuram
ao invés das amargas cordas que nos amarram...
A criançada animada, dá azo à fantasia
sequiosos de crescer, são adultos por três dias 
Nas ruas, desfilam magistrais, carros alegóricos em correnteza
E do alto dos mesmos, acenam aos súbitos o rei e a rainha
orgulhosos na sua suprema realeza
E há matrafonas, cabeçudos e os Zés-Pereiras 
Muito humor, sátiras e brincadeiras
e belas ninfas que de arrojo vestiram sua pele
E dança-se o baile trapalhão, bebe-se da boa casta, até cair ao chão
Porque é "carnis valles", embriaguemos a carne incendiando-a de prazeres
E nesta louca magia...
Sequei lágrimas, rasguei versos de dor que um dia escrevi
E num gesto insano, antes que desça o pano
sacio minha carne e de prazer encho meu coração
marchando ao rufo de tambores , rodeada de mil cores
sem pranto.. entro nesta ilusão
Em breve finda a fértil festa que se gerou
Chega o terceiro dia...
enterra-se o entrudo e assim se vislumbra a vida
E neste misto de paganismo e religiosidade
Espero o recomeço de uma vida purificada.

© Ana Sousa Simões