Carnis Valles
Abri a porta ao entrudo
entrei num folguedo carnavalesco, pleno de festa e folia
abandonando as dores do dia a dia
São de cor os cortejos que desfilam
por ruas abarrotadas de música e alegria
Esquece o povo e esqueço eu... a crua e fria dor do seu viver
E nesta permissão de alegorias e fantasia
traja o povo vestes de nobreza
Que sejam de seda as linhas que suas vestes costuram
ao invés das amargas cordas que nos amarram...
A criançada animada, dá azo à fantasia
sequiosos de crescer, são adultos por três dias
Nas ruas, desfilam magistrais, carros alegóricos em correnteza
E do alto dos mesmos, acenam aos súbitos o rei e a rainha
orgulhosos na sua suprema realeza
E há matrafonas, cabeçudos e os Zés-Pereiras
Muito humor, sátiras e brincadeiras
e belas ninfas que de arrojo vestiram sua pele
E dança-se o baile trapalhão, bebe-se da boa casta, até cair ao chão
Porque é "carnis valles", embriaguemos a carne incendiando-a de prazeres
E nesta louca magia...
Sequei lágrimas, rasguei versos de dor que um dia escrevi
E num gesto insano, antes que desça o pano
sacio minha carne e de prazer encho meu coração
marchando ao rufo de tambores , rodeada de mil cores
sem pranto.. entro nesta ilusão
Em breve finda a fértil festa que se gerou
Chega o terceiro dia...
enterra-se o entrudo e assim se vislumbra a vida
E neste misto de paganismo e religiosidade
Espero o recomeço de uma vida purificada.
© Ana Sousa Simões
© Ana Sousa Simões














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