sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um conto de Natal

Espírito de Natal
Era véspera de noite de natal, uma chuva fina e fria pincelava as ruas da cidade.
Ao sabor de um vento agreste e frio, uma mulher desloca-se feliz em passos apressados, depara outra mulher conhecida e diz-lhe em tom alegre, Feliz Natal, di-lo repetidas vezes enquanto lhe oferece um sorriso rasgado, despedem-se com um beijo e seguem direcções opostas. Mais á frente cruza-se com um jovem casal desconhecido, e já um pouco distante escuta a voz da rapariga:__ Feliz Natal vizinha, a mulher sorri enquanto agradece e retribui, não são vizinhas nunca viu aquele casal. É o espírito de Natal que invade corações.
Chega a casa após uma longa viagem, as dores e o cansaço acompanham-na mas está feliz, é Natal, época de paz e amor. Sabe o trabalho que a espera para a reunião familiar, desde sempre que é em sua casa, recorda com alguma tristeza, por já não sentir o mesmo gosto ao confeccioná-las, as rabanadas os sonhos azevias o bolo-rei os doces de maçapão, recorda um pai natal estendido na caminha com as botas ao lado e as renas dormindo que fizeram as delícias dos filhos, mas hoje está gasta, fatigada, desejava ter uma varinha de condão que lhe permitisse oferecer um manjar dos deuses aos que mais ama. A família, pelo que sempre lutou… uma família…
 Mãe não vai fazer peru recheado este natal? Eis que pergunta a filha mais velha. Uma pergunta verbosa…ela bem o sabia, o peru teria de estar em marinada se fosse esse o prato principal.
Não filha, este ano não vai, a mãe tem dores e anda exausta, depois tu bem o sabes, ando doente e com muito trabalho, não consigo, comprei um pedaço de lombo e vou fazê-lo de um modo festivo, vi uma receita que me parece excelente.
Decidiste sozinha portanto? Responde a filha num tom acusativo. Lombo de porco? Grande espírito de Natal possuis este ano.
A mulher tenta explicar-se, mas em vão, a filha grita-lhe e amua… Não suporta vê-la assim, corre a ver receitas novas em busca de algo que agrade á sua filha querida. Mas em vão, nada lhe agrada… e começam as ofensas, depois o desprezo…A mulher sofre, tenta o dialogo mas um filme da TV é mais importante que qualquer outro assunto, a mulher chora, sofre pelas palavras amargas que escuta da boca de quem tanto ama, a quem tudo deu, mas este Natal falhou por não dar peru recheado.
Desesperada de dor revolta-se após ter sentido o sabor amargo das suas próprias lágrimas.
Enfrenta a filha e diz-lhe entre soluços e de vós alterada.
--- Perguntaste-me onde está o espírito de Natal? Eu te respondo, não o encontras num peru recheado, espírito de Natal é paz harmonia amor compaixão união, não é uma mesa farta que nos traz o espírito de Natal. Quem me dera uma sopa apenas, saboreada em harmonia amor e a tua companhia. Natal é a festa da família. Onde está a nossa que se zanga por ninharias?
A mulher sai do quarto lavada em lágrimas convicta que nem uma palavra que proferiu foi ouvida, a TV mais uma vez entrepõe-se entre as duas. Deita-se mas não consegue dormir, o seu choro incomoda o marido, decide levantar-se, Sente-se perdida, no meio de uma batalha, relembra que é Natal, Jesus nasceu para nos salvar, movida dessa força, decidida, acredita ser possível cimentar a harmonia no lar e ao seu coração regressa o verdadeiro espírito de Natal.
Natal é Amor é Compreensão.
Desejo que a ninguém falte na mesa o pão...

1 comentário:

Anónimo disse...

Um conto lindíssimo que tem toda a verdadeira issência de uma vida sofrida... Senti-o e reconheci esse Espírito de Natal. Somos forças, energia e está em nós lutar pelo amor, pela harmonia, pela paz dentro de nós...
Gostei muito do teu conto. Parabéns!
Beijinho doce nesta madrugada que é muito especial para mim
Borboleta Esvoaçante